Fora da Lei

Eu não sou besta pra tirar onda de herói. Sou vacinado, eu sou cowboy, cowboy fora da lei. E assim vivi nos últimos tempos, à margem da sociedade, sem lenço, sem um documento que me habilitasse nacionalmente a dirigir. Um fora da lei.


Ninguém pode dizer que eu nunca consegui boas pontuações. Foi através delas, seja estacionando em desacordo com as periquitas de plantão ou passando, com incríveis cinquenta por hora, em lugares que só permitem quarenta, pelos infinitos pardais empoleirados por aí, que consegui uma ficha tão suja e longa como a de Hei, Al Capone...


Um dia, recebi uma simpática missiva dos homens da lei de trânsito, caçando minha carteira de motorista por meio ano. Melhor, pedindo educadamente que eu a entregasse até um determinado dia.


Enrolei tanto pra entregá-la, que quando decidi fazê-lo, tinha realmente a perdido, não sabia onde ela foi parar e tive então que a entregar mesmo no faz de conta, já que não a tinha mais comigo.


Tal qual o nazareno, derrubei a cruz e pela terceira vez, teria que passar pela via sacra do curso dos regenerados. Pensei, dessa vez serei moderno: farei on-line. Paguei o curso e nada de começar o maldito.


Ele caducou e consegui uma renovação. Enrolei e caducou de novo. Como não tinha nem começado, mais uma vez consegui uma renovação.


Veio a tal pandemia e nada de eu iniciar as aulas. Consegui uma terceira renovação do curso e desta vez: fi-lo porque qui-lo.


Só eu sei das esquinas porque passei, este tempo todo sem documento, e do quanto penei de medo de ser pego pelos home.


Cada vez que via um giroflex, girando e piscando, eu nem piscava: fazia cara de homem sério, de paisagem, olhando além da lenda e ia, guiado pelas mãos de Deus.


Ah, e principalmente, rezava, cantarolando baixinho: Chá-lá-lá-lá-lá-lá-lá, meu irmão shalom, chá-lá-lá-lá-lá-lá-lá, meu irmão shalom!! E não é que deu certo? Nunca fui pego. Também se tivesse sido...


Muito bem, o curso acabou, fiz a prova final e então, descobri que não era só isso: tava apto a fazer uma prova presencial online! Consegui agendar no Hauer, mas acabei perdido no meio de tanto sábado e deixei escapar o dia da prova. Putz. Paguei nova taxa, mas não conseguia mais vaga pra agendar em Curitiba.


Ok, pensei, vou procurar em outra cidade da RMC, São José, nada, Campo largo, nada. E assim, sucessivamente, não havia disponibilidade em nenhum lugar perto. Consegui em Ponta Grossa. Beleza, assim passeio um pouco...


Fui até lá e adivinhe? Não passei na prova! Parecia pegadinha! Você sabia, por exemplo, que pessoas com dificuldades físicas estão entre aquelas que mais se envolvem em atropelamentos? Como pode?


Paguei novamente a taxa e mais uma vez, não consegui nenhum lugar pra fazer a prova. Adivinhe, Ponta Grossa, aí vou eu again...


Resumo da ópera: passei, paguei mais uma taxa pra fazer o exame de vista, fiz, passei e saí de lá, finalmente, com minha carteira digital na palma da minha mão e no cume calmo do meu olho que vê, assenta a sombra sonora dum disco voador...

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