Fernando Carneiro

Tive algumas oportunidades em minha vida. Algumas pude agarrar, enquanto outras, vi passar por mim, como um trem que passa, mas não para naquela estação.


Um desses comboios foi a Escola de Música e Belas Artes do Paraná. O trem parou, subi, mas tive que descer na estação seguinte. O que vivi naquele vagão, entretanto, ainda trilha em mim, de forma viva.


Uma das coisas que tenho saudade é das aulas de História da Arte que tive com Fernando Carneiro.


Arquiteto, pesquisador, professor e colecionador, era um dos filhos do historiador David Carneiro.


Fernando, na época, morava nesta casa, dizem, inspirada na Ramalhete, casa imaginada e descrita por Eça de Queirós em Os Maias, cuja fachada, e somente a fachada, foi, feliz ou infelizmente, preservada na Brigadeiro Franco.


Tendo estudado na Inglaterra, Estados Unidos, França e Chile, além de ser um dos fundadores do curso de arquitetura na UFPR, Carneiro deu aula na PUC, no CEFET e teve importância pro meio cultural do Paraná.


Como arquiteto, projetou em 1955, o Cine Arlequim, um pequeno e inovador cinema, num terreno irregular, no largo Frederico Faria de Oliveira, onde hoje é a Lojas Americanas.


Nunca entrei nele, só lembro da fachada. Com temática Arlequim, Colombina e Pierrô e com uma programação de primeira, era na época, um cinema classe A.


Ao falecer, em 1994, aos 66 anos, Fernando Carneiro deixou, através de testamento, todo seu acervo artístico ao MAP e ao Museu de Arte Sacra.


Gostaria de poder assistir suas aulas hoje, um pouco mais maduro. Na época, eu fazia duas faculdades. Como as aulas eram logo depois o almoço e invariavelmente, através de slides, com a sala na penumbra, encostava na parede e tentava não dormir muito com o lusco-fusco.


Dono de uma elegância ímpar, era um verdadeiro dândi, mas de estilos inesperados. A cada dia parecia um personagem diferente.


Num dia era um lorde inglês. Terno cinza, gravata cinza, sobretudo cinza.


Num outro, que estava num Safari, trajando um slack, de khaki da cabeça aos pés. Só faltava mesmo um rifle.


Num outro dia, era um garoto New Wave, com tênis, cinto e óculos vermelhos.


Sua vontade de ensinar o que sabia e fazer-nos visualizar o que dizia, eram grandes. Sua voz, porém, era monótona e ia desaparecendo no ar.


Lembro dele narrando suas viagens: Imagine você abrir a janela e ver ali, diante dos seus olhos, as pirâmides! construídas pelos faraós...


Ou demonstrando, de lado, contra a parede, com pernas e braços esticados, toda a força que arcobotantes suportam pra manter paredes e abóbadas de uma catedral em pé.


Não podemos voltar no tempo, mas podemos fazer com que ele permaneça em nós. Penso que se não conseguimos esquecer de algo, é porque de alguma forma, isso faz parte daquilo que somos.


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