Enedina

Atualizado: 2 de dez. de 2021

A casa de madeira, com varanda e lambrequins, utilizada como sede do Iphan, no Juvevê, em Curitiba, não foi construída originalmente lá.


A casa do delegado e major Domingos Nascimento Sobrinho, foi construída na chácara dele no Portão em 1920 e em 1984, foi desmontada, transferida e remontada no atual local, pra ser a sede do órgão.


A família de Domingos Nascimento Sobrinho teve, trabalhando em sua casa, na década de 20, uma empregada chamada Virgília Alves Marques.


Virgília, que pra família, era Dona Duca, tinha uma filha chamada Enedina, que tinha a mesma idade de Isabel, a Bebeca, filha de Domingos.


Bebeca e Enedina cresceram juntas e Domingos proporcionou à Enedina, a mesma educação de sua filha, Bebeca.


As duas estudaram, desde pequenas, em colégios particulares e mais tarde na Escola Normal, onde hoje é o Instituto de Educação, as amigas, depois de se formaram juntas, foram pro interior, pra trabalharem como professoras.


Depois de alguns anos, já de volta à Curitiba, Enedina, até ter sua própria casa, passou a morar com a família Caron, no Juvevê, onde além de lecionar em uma pequena escola próxima e ajudar informalmente na limpeza da casa, pra pagar sua moradia, voltou aos estudos.


Fez o curso noturno complementar em pré-Engenharia, no Ginásio Paranaense (hoje o Colégio Estadual do Paraná) e depois ingressou na Faculdade de Engenharia da Universidade do Paraná.


Em 1945, Enedina Alves Marques, graduou-se em Engenharia Civil. A formatura foi no teatro do Palácio Avenida e teve como paraninfo, o professor João Moreira Garcez.


No ano seguinte, Enedina tornou-se auxiliar de engenharia na Secretaria de Estado de Viação e Obras Públicas.


Em 1947, o então governador Moisés Lupion, a transferiu pro Departamento Estadual de Águas e Energia Elétrica, onde trabalhou no Plano Hidrelétrico do estado e atuou no aproveitamento das águas dos rios Capivari, Cachoeira e Iguaçu.


A Usina Capivari-Cachoeira foi seu maior feito como engenheira. Leia mais aqui. Dentre suas outras obras, destacam-se o Colégio Estadual do Paraná, a Casa do Estudante Universitário de Curitiba entre outras.


Apesar de vaidosa, Enedina usava macacão nas obras e durante a construção da usina, levava uma arma na cintura, disparando tiros pro alto, pra se fazer respeitar entre os homens da construção.


Em 1958, o major Domingos Nascimento Sobrinho morreu, deixando Enedina, como uma de suas beneficiárias em seu testamento.


Em 1962, ao aposentar-se no governo do estado, recebeu o reconhecimento do então governador Ney Braga, que por decreto, valorizando seus feitos como engenheira, lhe garantiu proventos equivalentes ao salário de um juiz.


Em agosto de 1981, aos 68 anos, Enedina, vítima de um ataque cardíaco, foi encontrada morta em seu belo apartamento no Centro de Curitiba. Como morava só, seu corpo foi encontrado apenas uma semana depois.


Após sua morte, vários artigos ressaltando seus feitos foram publicados pela imprensa.


Uma rua no bairro Cajuru, foi batizada em 1988, com o seu nome e recebeu também, uma inscrição no Memorial à Mulher Pioneira.


A casa que hoje serve de sede ao Iphan Paraná, ajuda a compreender a importância que as construções históricas têm na sociedade.


Tão importante, porém, é que ela, com sua beleza e originalidade, faz, mesmo que indiretamente, uma justa homenagem a quem, pela beleza e originalidade de seus atos, proporcionou que Enedina tivesse sua importância na construção de nossa sociedade e nossa história, como algo possível.


Enedina Alves Marques foi a primeira mulher engenheira do Paraná e a primeira engenheira negra do Brasil.


Em 2006, foi fundado o Instituto de Mulheres Negras Enedina Alves Marques, em Maringá.


Em 2013, entretanto, o ano do seu centenário, a data passou batida.


Em 2014, uma campanha online pedia que o Edifício Teixeira Soares, ex-RFFSA, adquirido pela UFPR, fosse renomeado em sua homenagem.


Em 2019, Enedina é tão visível, quanto à usina que, à custa de tiros pro alto, ajudou a projetar e a construir.


Cento e vinte anos depois, ainda precisamos de novos Domingos Nascimentos Sobrinhos.


Viva Enedina!


406 visualizações2 comentários

Posts recentes

Ver tudo

Frigidaire

Essencial