Empregadas

Encontrar e manter uma empregada razoavelmente boa e satisfatoriamente de confiança, não era uma tarefa fácil e minha mãe sempre sofreu com isso. Com o andar e o sacolejar da carruagem foi aprendendo a contornar e dominar o problema. Dentro deste aprendizado, fomos, ao longo do caminho, convivendo com muitos tipos, algumas pareciam personagens da Praça da Alegria.


Lembro de uma que não escovava os dentes porque dizia, saía sangue da gengiva, nem tomava banho, pois dava constipação. Se uma mosca pousava em sua perna, punha as mãos fechadas em concha pra protegê-la.


Uma outra, escreveu o conteúdo de uma na lata com marcador permanente e assim ficou, por muitos e muitos anos, já que a lata durou bem mais que ela: tigro.


Nenhuma entretanto, marcou mais que Lídia. Mãe solteira de um menininho esperto, chamado Marcelo, com uns dois anos na época, ela chegou do interior trazendo seu filho, que também, passou a morar conosco.


Lídia tratava minha mãe como uma dama. Já Marcelo, era tratado como um vagabundo. Cada vez que minha mãe pedia algo à Lídia, esta dizia no ato: era isso mesmo que eu ia fazer. Sempre! É como se fosse possível antever seus atos.


Lídia não tinha a mínima paciência com o filho. Tratava-o no cabo de vassoura. Na hora de tomar banho, enfiava o menino embaixo da torneira do tanque, claro que a água era fria, claro que o menino chorava e claro que minha mãe reclamava e brigava com ela e claro que não adiantava nada. E isso foi decisivo em sua demissão.


A quem perguntasse sobre o pai do menino, Lídia dizia que era um motorista de ônibus. Morávamos no Seminário. Na quadra de baixo, na Sete de Setembro, era possível ver a frota estadual de ônibus entrando e saindo de Curitiba, tendo o interior como destino.


Nos fins de tarde, ela ficava encostada no muro com o filho no colo. Cada vez que passava um ônibus da Garcia, indo ou vindo, ela apontava e dizia: Lá vai teu pai Marcelo, lá vai teu pai...


Até hoje, tantas décadas depois, cada vez que vejo um ônibus da Garcia, uma voz sopra no meu ouvido: Lá vai teu pai Marcelo, lá vai teu pai. Imagina no do menino...


P.S. Anos mais tarde, Lídia voltou a trabalhar em nossa casa com o Marcelo novamente. O bebê, tão inteligente e alegre, tinha se transformado num pré-adolescente tímido e inseguro. Tinha dificuldades de raciocínio e certas palavras como helicóptero, por mais que eu tentasse ensinar, não saiam de sua boca e ele se atrapalhava muito. Lídia, mais madura, mudou: passou a tratar o filho com muita atenção e carinho. O estrago, entretanto, parece que tinha sido feito. Depois dessa segunda temporada em casa, não tivemos mais notícias suas.



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