El dorado

Era o primeiro trabalho pra um cliente que seria uma verdadeira conquista. Tudo precisava dar certo. A produção tava iniciada e como sempre, havia limitação do material na província.


O tecido existente, aprovado, lindo, ideal pro projeto e pro orçamento, era escasso e oferecido em vários pedaços, não numa peça inteira.


Estudando bem, vimos que, cortando primeiramente na metade da largura, seria possível conseguirmos todas as peças que precisávamos, desde que aquele raciocínio fosse seguido na risca.


A costureira contratada, que morava no Jardim Saturno, tinha boas referências e fui até ela pra passar e repassar o trabalho.


Deixei com ela todo o esquema do corte com as peças de tecido enumeradas e esquematizadas, uma a uma, pra que tudo desse certo.


No dia seguinte ela ligou avisando que iria faltar tecido. Em cinco minutos tava lá, tentando entender o que havia dado errado.


A infeliz simplesmente ignorou todo o estudo e foi cortando o tecido como a cabeça dela lhe ditava.


Devo ter feito uma cara muito feia pois a mulher começou a chorar dizendo: não briga comigo moço... Minha vontade era furar os olhos dela com a tesoura em cima da mesa.


Por vários motivos, achei que não seria uma boa solução. Pra não brigar, o que atrasaria o serviço e complicaria ainda mais a coisa, resolvi sair dali.


Era o entardecer de um final de primavera. O céu poente laranja e púrpura dizia que a vida prosseguia.


Segui por onde o carro foi me levando e topei com um lugar nunca dantes estado por mim.


Era alto, arborizado, calmo, alaranjado, mágico. Pensei, onde diabos estou?


Andei pelas ruas do lugar, como que encantado, até ver numa placa: vende-se terrenos, tratar aqui. Já nem me lembrava mais o que eu tava fazendo ali.


No dia seguinte o problema dos tecidos foi resolvido. Disfarçando aqui e ali, o serviço saiu e ficou um belo primeiro trabalho.


O que não saiu foi o lugar. Desde aquele primeiro pôr-do-sol, aquele cantinho de Santa Felicidade faz parte de nossas vidas. Nosso El dorado, é onde vivemos e, até hoje, onde construímos, dia a dia, nossa história.


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