Educação Física

Sempre gostei de esportes, como gosto de fígado, de política e de unha encravada. Nos tempos do ginásio, no Colégio Paranaense Internato, onde Educação Física, era um item obrigatório, pra cumprir meu dever, fui obrigado, mesmo contra minha vontade, a entender o funcionamento e, pelo menos, tentar aprender na prática, vários dos esportes existentes.


Lembro-me de Lester, um dos professores, estilo militar, parada dura, com queixo de Urutu. Gostava muito daqueles que levavam jeito pra esportes, enquanto, àqueles que não sabiam muito o que fazer com a bola, que não conseguiam saltar com vara ou que chagavam na lanterna, após correr alguns quilômetros pelos quarteirões do bairro, ele nem olhava na cara.


Segundo Kant: uma ação feita por dever, não tem seu valor moral na sua utilidade, mas na lei que impulsiona a ação. O dever somente deve ser impulsionado pela lei, devendo-se descartar qualquer sinal de vontade própria, guiada pelo que se ganha no cumprimento do dever.


Lester e seu padrão, Nascido pra Matar, foi inesquecível, mas não foi o único professor a não tentar despertar em mim qualquer simpatia por atividades atléticas. Houve outros antes e depois dele, apenas voltados aos que facilmente conseguiam bons resultados e não aos que exigiam deles, um certo empenho.


Esses tempos fuçando na rede, descobri algo que nunca tinha ouvido falar: meninos e jovens norte-americanos, que ao serem obrigados a participar de atividades físicas nos tempos escolares, às quais talvez não gostassem, sofrendo por suas inaptidões, ou até mesmo gostando delas, possam ter passado o que passei, mas com um agravante: eram obrigados a praticá-las nus.


Pouca gente fala disso, mas conta a história, que em 1885, a YMCA, a famosa Associação Cristã de Moços, responsável, entre outras coisas, pela criação do Volley e do Basket, ao abrir a primeira piscina coberta de lazer da América, em New York, exigiu que os rapazes nadassem nus, pois calções, então feitos de lã ou de algodão, eram armadilhas em potencial pra bactérias e doenças e suas fibras entupiam o sistema simples de filtragem da piscina. Na época, portanto, nadarem nus, pareceu ser a solução mais sensata.


Com o surgimento de outras piscinas, não demorou muito pra que alguns administradores seguissem este exemplo, até que as diretrizes da influente APHA, Associação Americana de Saúde Pública, responsável pelo gerenciamento de piscinas, sugeriu, em 1926, que alunos de escolas públicas do sexo masculino nadassem nus.


Como os sistemas de filtragem de piscinas foram sendo aprimorados e os trajes de banho passaram a ser feitos de tecidos modernos, como o nylon, fibras de tecido e germes na piscina, já não eram mais um grande problema e as diretrizes da APHA, deixaram de vigorar a partir de 1962.


O insólito é que mesmo depois que as piscinas passaram a instalar sistemas de filtragem mais avançados e nadar nu se tornou desnecessário, muitas instituições de Chicago e de outras cidades, continuaram com a obrigação, prorrogando aquela prática, aparentemente estranha, mas então tida como uma tradição, seja de inspiração grega ou troiana, por mais vinte anos.


Naquela época, pouca gente questionava a regulamentação ou o tal costume, e quando isso acontecia, os responsáveis listavam motivos pra que tal regra fosse mantida: além de incentivar os meninos a ficarem mais limpos e livres dos germes, alegavam que a natação nua construía coesão entre os jovens, promovia uma interação sadia entre eles, reforçava a masculinidade por meio da aptidão física, do atletismo, do trabalho em equipe, da disciplina, do sacrifício pessoal e os preparava pra vida adulta.


Se algum menino ou algum jovem se mostrasse incomodado com aquela situação, era visto como alguém com dificuldade de sociabilidade ou tinha sua masculinidade colocada em dúvida. A solução portanto era aceitar e continuar nadando, nadando.


Penso que não há nada demais em campos de nudismo ou praias naturistas, onde, praticamente em todo o mundo, praticantes praticam a prática de conviverem naturalmente nus. Também não vejo nada demais, num grupo de amigos que resolvem nadar nus numa praia, num lago ou numa piscina pra se divertir num lugar ermo.


O que me parece estranho nessa velha história, foi obrigar todos os meninos e adolescentes, independentemente de suas vontades, semanalmente, durante suas vidas escolares, e isso se repetir por mais de cinco décadas, a uma prática, não apenas diante dos seus amigos, mas de todos os colegas, que nem sempre eram bons camaradas, de seus professores, e em ocasiões especiais, diante de suas colegas de classe, amigas, possíveis namoradas e das respectivas famílias delas.


Por outro lado, enquanto os meninos e rapazes eram obrigados a nadarem pelados, as meninas e moças, que nadavam em separado, em outras piscinas ou em outros horários, eram obrigadas a usar maiôs desde que simples. O argumento era de que, além das regras mensais, ela eram mais tímidas que os meninos.


Era defendido na época: que ao se olhar o corpo de uma mulher, há mais coisas mostradas do que nos homens, como os seios e tudo o mais e que elas gostam de esconder muitas coisas, enquanto nos meninos há apenas uma coisa e todos têm a mesma coisa.


A obrigação de usarem os tais maiôs simples, entretanto, não as livrava de passarem por situações constrangedoras e humilhantes. Algumas escolas públicas, sabe-se lá porque, exigiam que as moças usassem maiôs com código de cores pelo tamanho do busto.


Moças com busto pequeno usavam maiôs na cor marrom, um pouco maior, azul marinho, depois vermelho, até chegar às mais avantajadas, que deveriam usar maiôs verdes. Imagine esse tipo de classificação na cabeça de uma menina de catorze anos.


Voltando ao velho e bom Kant: todos os imperativos se exprimem pelo verbo dever e mostram assim a relação de uma lei objetiva da razão para uma vontade que segundo a sua constituição subjetiva não é por ela necessariamente determinada, ou seja uma obrigação. Eles dizem que seria bom praticar ou deixar de praticar qualquer coisa, mas dizem-no a uma vontade que nem sempre faz qualquer coisa só porque lhe é representado que seria bom fazê-la. Praticamente bom é, porém aquilo que determina a vontade por meio de representações da razão, por conseguinte não por causas subjetivas, mas objetivamente, quer dizer por princípios que são válidos pra todo o ser racional como tal.


Com certeza, a maioria daqueles que viveram isso, encaravam numa boa e não viam nada de mais nas tais obrigações. Por outro lado, é certo que outros não viam de uma forma tão positiva, serem obrigados a se expor desta maneira, toda semana, durante anos e isso, certamente deve ter gerado em cada um desses ex-alunos, conflito, raiva, confusão e ansiedade, quando lembram do pesadelo constante do bullying ao qual, por anos, foram submetidos.


Eu pelo menos, penso: que bom que não tenho mais que encarar o olhar sinistro do Lester, numa gélida manhã de segunda-feira...


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