Dorotéia

Ter sido criança em minha casa foi, muitas vezes, uma festa. Vivia cercado de gente jovem. Além dos irmãos, mais velhos que eu, havia, entrando e saindo pela casa, seus amigos, os amigos dos amigos e os primos. Muitos formavam a turma Los Morcegues e pairavam, dia e noite, por ali.


Se o Batel tinha a turma do Les Paxá, o Seminário tinha Los Morcegues. Hoje os elementos dessas turmas seriam vistos como marginais. Naquela época, eram vistos apenas como jovens, com cabelos compridos, calças toureiro de boca larga e camisetas coloridas e curtas. Ou seja, marginais.


Uma das muitas coisas que essa turma aprontou, foi comprar um carro velho. Era um Nash preto dos anos 50 e obviamente, caindo aos pedaços. O nome do carro era Dorotéia e com ela aprontaram muito pelas ruas de uma pacata e bucólica Curitiba.


Por ali, na curva próxima ao Colégio Paranaense, havia um velho, frondoso e enorme plátano. Pois um morador de frente à árvore, incomodado com as folhas caídas em seu jardim, solicitou seu corte. Em uma época ecologicamente incorreta, ele foi prontamente atendido pela prefeitura.


O bairro não gostou da perda e a turma também não. Resolveram então fazer uma manifestação de protesto e pra antecipar o destino do carro, utilizaram a Dorotéia pra isso.


Num dia de semana, em pleno meio dia, hora de saída das escolas próximas, Paranaense, D. Pedro e Rio Branco, soltaram a Dorotéia na curva, que bateu diretamente no enorme cepo que sobrou da árvore. Foi um alvoroço. Um Deus nos acuda. Um deles deitou no asfalto e colocaram um lençol por cima. Era gente pra todo lado.


O Rua XV-Barigui passava devagar pelo lado, pra que todos do ônibus, pudessem ver o morto. Eu, adorando tudo aquilo, resolvi entrar no carro, pra mostrar intimidade com o fato.


Mal entrei e fui puxado pelo braço por seu Carlito, que tinha uma venda na esquina, num prédio que resiste até hoje. Sai daí Renato! Os malucos vão soltar uma bomba! E ela explodiu assim que saímos dali.


Sobrevivi à essa e às outras maluquices. Se não morri, pelo menos, não ando vazio e fiquei mais forte.

Nash anos 50 | foto Tim Wilder


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