Dona Márcia

Que saudade da professorinha que me ensinou o beabá... A saudade de dona Márcia é verdadeira. Não foi ela, contudo, que nos alfabetizou, e nunca foi uma professorinha. Ela era A Professora.


O reinado de dona Márcia Cavalcante Bezerra ocorreu de 1972 a 1974. Os anos foram passando e ela foi nos acompanhando no Grupo Escolar D. Pedro II, da segunda, até a metade da quarta série.


Fomos uma classe privilegiada, távamos no Seminário, dos anos 70, a um passo do Batel, numa escola pública, considerada um padrão de qualidade no estado e seguramente, com a melhor professora que poderíamos ter ou sonhar em ter.


De uma beleza singular, Dona Márcia era dona de uma elegância nata, que me lembrava uma princesa, uma Grace Kelly morena. Seu domínio em sala de aula era fenomenal.


Poucos alunos ousavam desobedecê-la. Sua forte presença, sua seriedade e simpatia, aliadas ao fato de ter nos acompanhado, dos oito aos dez anos, fez com que nos identificássemos muito com ela.


Lembro que certa vez, quando sentado na carteira atrás de Morgana, fiz, sem querer, um risco com a caneta nas costas do seu guarda-pó e, parvo, a avisei. Ela, indignada, pra revidar, riscou minha manga algumas vezes. Pra que! Não pensei duas vezes: deixei as costas dela completamente riscadas com caneta azul. Ela abriu um berreiro no meio da aula.


Dona Márcia, chegou e apenas disse com sua classe peculiar, sem alterar o tom de voz, mas me fuzilando com os olhos: Luiz Renato, o que significa isso? Quase morri de vergonha…


Quando ela deixou o magistério, pra assumir um cargo importante na Secretaria da Educação, no meio do ano, foi uma choradeira danada. Puseram então, uma bruxa velha no lugar dela.


Um dia, a sempre petit Francine pisou, por distração, no pé daquela infeliz. Ela urrava de dor, em plena sala de aula, dizendo não compreender como um ser tão pequeno, podia fazer um estrago tão grande, enquanto mandava alguém assoprar o seu pezão.


A revolta foi grande. Alunos e pais botaram a boca tão alto no trombone, que, rapidinho, a larápia foi escorraçada da escola e botaram outra no lugar, melhor, mas que chamava metade da turma de Cabeça de Repolho...


Por muito tempo, procuramos dona Márcia, sem sucesso. Ela não participa de redes sociais. Foi uma alegria, esses tempos, casualmente, ter encontrado e feito amizade com Guilherme, seu filho. Esperamos que um dia, possamos marcar um jantar de reencontro de toda a turma com ela.


Ficamos muito contentes por tê-la encontrado e principiante em sabermos que está bem e, mesmo após tanto tempo, com a mesma beleza e a aura de sua juventude.


Há coisas que nos acontecem e pessoas que nos são tão caras, que, independente de há quanto aconteceram e há tanto tempo não as vemos, ocupam um lugar especial em nosso coração, fazendo-nos viajar e reviver como se tivessem acontecidas ou vistas, semana passada. São momentos que nos marcam e nos fazem sentirmos vivos.


Eu não sei pra que que a gente cresce, se não sai da gente essa lembrança. Dona Márcia. Muito obrigado. Eu era feliz e não sabia.


P.S. Ao localizar, Guilherme, seu filho, em 2020, em plena pandemia, enviei este texto pra que obtivesse sua aprovação, pra que pudesse postá-lo. Dona Márcia o leu, o aprovou e me mandou, por ele, uma resposta:


“Prezado Luiz Renato,


Você não pode imaginar com que alegria li tua afetuosa mensagem, que para mim foi mais que uma valiosa homenagem.


Com tuas palavras de tamanho carinho, fiz uma viagem ao passado e me vi com 26 anos, lecionando no D.Pedro II e tendo imenso amor pelos meus alunos.


Tenha a certeza de que a gratidão expressada por você é característica dos espíritos evoluídos!


Pena mesmo que o tempo passa e muito rápido, pois lá se vão quase 50 anos, hoje tenho 74.


Fiquei admirada com tua privilegiada memória, lembrando de detalhes vividos em tão tenra idade e agora lembrados com absoluta lucidez.


Que bom meu querido, que consegui deixar boa recordação no exercício do meu ministério! Ser professora é realmente missão, pois temos sob nossa responsabilidade o dever de contribuir para a formação daqueles que mais tarde serão os profissionais e as cabeças pensantes que escreverão o destino de nossa nação.


Tomara que este difícil momento pelo qual a humanidade está vivenciando, termine logo, pois será imenso prazer jantar com você e os demais alunos.


Lembro com saudade daquele tempo quando podíamos viver bem mais felizes do que hoje. O mundo e os valores essenciais de vida mudaram totalmente. Que pena!


Recordo com carinho de você e de sua irmã "impecavelmente uniformizados", demonstrando o capricho da querida Josefina, minha colega de trabalho, por quem sempre dediquei sincera amizade.


Por fim, quero confessar sem medo de estar equivocada: eu também era feliz e não sabia...”


Márcia Cavalcante Bezerra




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