Dona Esther

Estudei desenho e pintura no atelier de dona Esther, na foto aos 36 anos.


Seu Atelier ficava na parte mais alta de sua residência na Alameda Júlia da Costa. Era preciso subir duas escadarias e passar por dentro da casa pra alcançá-lo.


Lembro do cheiro de tinta de todos os tipos. Paredes repletas de prateleiras com peças pintadas, outras pra pintar. Era uma sala grande, envidraçada, com face norte e vista pra todo bairro das Mercês.


Dona Esther era uma mulher alegre e cordial, mas também brincalhona e sapeca. Haviam duas mesas grandes onde os alunos trabalhavam e ela ficava em volta, atendendo a todos.


Num canto da sala, numa terceira mesa menor, ficavam as alunas mais antigas, numa espécie de confraria auto denominada, Igrejinha. Naquele canto, mais que pinturas, as conversas e risos rolavam soltos.


Dona Lourdes, uma senhora um pouco ranzinza, mas adorável, era uma das mais animadas. Certa tarde apareceu uma nova aluna e vi Dona Esther cochichando num canto com a moça.


Ao se aproximar da Igrejinha, ela provocou: Vou mandar comprar nosso lanche no Caruso. Não quer ir você mesma Lourdes? Ela prontamente respondeu, sem tirar os olhos da pintura: Ah, se pudesse iria mesmo, só pra ver aquele homem lindo. Que pão! Elegante e charmoso, que pedaço de mal caminho. Ah, se eu não fosse casada...


Nisso, Dona Esther falou em passant: A propósito, Lourdes, sabia que essa moça é filha do Caruso? Dona Lourdes arregalou os olhos, abriu a boca e ficou vermelha, verde, roxa, todas as cores de seus potes de tinta. Até que numa gargalhada, Dona Esther disse que era só uma brincadeira.


No seu aniversário, fazíamos uma vaquinha pra dar a ela um único e precioso presente. Lembro que em um ano foi um anel de ouro encomendado especialmente, no desenho de uma paleta com o pincel passando pelo buraco, onde cada cor era uma pedra brasileira. No ano seguinte, foi o mesmo tema na forma de um pingente.


Eram festas muito legais com doces e salgados, que eu, um piá caipira, nunca tinha visto antes. Na hora de abrir o presente, uma das alunas tocava no piano, Que Sera, Sera (Whatever Will Be, Will Be) de Jay Livingston e Ray Evans, música imortalizada na voz da inesquecível Doris Day. Tem como se esquecer de coisas assim?


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