Dois no Rio

Quando somos jovens, não devemos deixar de fazer aquilo que tá ao nosso alcance, por comodismo, cautela ou seja lá como queiramos chamar o medo.


Foi pensando assim, que a long, long time, mesmo sem dinheiro, embarcamos numa excursão pro Rio de Janeiro, num ônibus de turismo, com pagamento em suaves prestações a perder de vista.


Ao embarcarmos no veículo, estacionado na Emiliano Perneta, já percebemos de cara que não seria fácil, passar alguns dias naquela festa estranha, com gente esquisita.


Na manhã seguinte, depois de uma briga boba de casal, em Caraguatatuba, por comer ou não comer um sanduíche no ônibus ou fora dele, combinamos que a viagem, a partir dali, seria só alegria.


Fazer amizade com uma das excursionistas chamada Cecília, nos ajudou bastante a enfrentarmos os romeiros da comitiva esperança.


Contornando o litoral, numa viagem sem fim, mas de tirar o fôlego, fomos indo devagar e sempre, parando em lugares fantásticos como Parati e Angra dos Reis, até chegarmos na tão esperada e distante cidade maravilhosa.


Os passeios foram o mais convencional possível e pelo menos, não deixamos de ver nada daquilo que esperávamos ver, incluindo na lista: Petrópolis e Paquetá.


Numa certa noite fomos à uma churrascaria, onde empolgados, Raquel e eu, pensamos ter dado um verdadeiro show de tango. Abrimos as nossas asas e soltamos nossas feras, em meio aos espetos que corriam por entre as mesas.


Dois casais de argentinos que viajavam conosco, comentaram que foi muito divertido, mas aquilo que dançamos, nem por sonho, poderia ser chamado de tango.


Cecília tinha uma amiga com a qual dividira um apartamento em Curitiba, que tava morando no Rio. Era atriz e trabalhava numa novela da Rede Manchete.


Ela tava casada, e Cecília nos convidou pra que fôssemos juntos com ela, à noite, fazer uma visita à casa da amiga.


Embarcamos num taxi e logo chegamos a um prédio semi-abandonado de frente pro Aterro. Descobrimos, pelo taxista, que o prédio era do time do Flamengo, que o construiu, há algumas décadas, pra acomodar os jogadores e suas famílias.


Rezamos pra que o velho elevador conseguisse nos levar até o andar, lá no alto. Ao abrir a porta, uma surpresa! O apartamento, enorme, tinha poucos móveis, era lindo e iluminado apenas por alguns abajures, aqui e ali, com uma imensa sacada pro Aterro e pro mar que murmurava algo lá no fundo, na escuridão.


Pensar em Fotografia de Tom, Eu, você, nós dois, aqui nesse terraço à beira-mar... foi inevitável.


Difícil de acreditar, mas da janela de trás, via-se o Redentor, que lindo... e novamente Tom tava presente em nossa Noite Carioca.


A noitada dos curitibanos tava apenas começando. Após uns drinks, o casal anfitrião anunciou que nos levaria pra conhecermos o verdadeiro e tradicional Rio.


O homem, mezzo Capitão Furacão, mezzo Sinhozinho Malta, foi buscar o carro na garagem do prédio. Quando surgiu, num Galaxie 500 branco, com interior em couro vermelho, o quadro se completou.


Fomos deslizando pra Lapa e no caminho, soubemos o nosso destino: a Gafieira Elite, atendendo ao convite do Manoel Garçom, meu Deus do céu que baile bom...


Tom deu lugar a João Nogueira, que pelo resto da noite ficou ecoando na minha cabeça.


Nosso anfitrião, obviamente, tinha uma mesa reservada com seu nome. Aquilo era um verdadeiro templo da dança.


Os casais, simples, mas absolutamente elegantes, passavam por nossa mesa. Os cavalheiros empunhando lenços brancos, pra não encostarem a mão suada nas costas das damas. Coisa de outros tempos.

Até tentamos dançar, mas sentimos que nosso talento era mesmo pra uma churrascaria, ou talvez, nem isso.


Tinha medo de levantar, lavar o rosto e, quase morrendo de desgosto, descobrir que foi apenas um sonho. Pra ser sincero, acho que até hoje penso que foi…


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