Despedida de Casal

No antigo Outlet Center, na Brigadeiro Franco, onde foi instalada a Casacor, Raquel e eu, resolvemos comprar algumas malhas.


Raquel tava bem grávida e nossa intenção era fazer uma viagem. Uma longa viagem de despedida de casal.


Pela primeira vez na vida, tínhamos um carro zero, tirado no consórcio, e poderíamos, encarar uma estrada de verdade. Aquele barrigão, contudo, exigia roupas confortáveis.


Munidos de algumas malhas, confortáveis e medonhas, deixamos Curitiba e pegamos a estrada rumo à Gramado. Descemos até Tubarão e dali dobramos à direita pra subirmos a translumbrante Serra do Rio do Rastro.


Era uma linda tarde de setembro e conforme subíamos a famosa estrada, com suas curvas e mais curvas, as cores do por do sol, ao som da potente e contagiante voz de Oswaldo Montenegro, em ré maior, que tocava alucinadamente no toca-fitas, iam perdendo a força.


Quando chegamos lá em cima, no planalto, extasiados com tantas curvas, cores e notas musicais, já era noite e o clima era outro. Encontramos o frio cortante da serra.


Ficamos num hotel tão barato em São Joaquim, a ponto de não ter nem sabonete pra tomarmos banho. A farmácia local ainda tava aberta e um rapaz foi comprar um pra nós, enquanto jantamos uma deliciosa sopa caseira.


Na manhã seguinte embarcamos cedo pra Gramado. Passamos por Lages, onde nos deparamos com as taipas, as lindas cercas da região, na verdade interessantes muros feitos com pedras locais.


Conhecemos tudo de bom que a dupla Canela-Gramado tem pra oferecer: parques, igrejas, construções, cafés coloniais e tudo o mais que um casal, numa segunda lua de mel poderia desejar.


Nos apresentaram a obrigatoriedade de conhecermos o Itaimbezinho, o grande e maravilhoso cânion que separa o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Pintou um pouco de preocupação, pois alertaram que era longe e a estrada ruim. Carro novo e mulher grávida não combinava com estes itens turísticos, mas a juventude, essa transviada, não sabia bem o que é medo.


Fomos com cuidado e chegamos bem. Na hora de atravessarmos a entrada do parque, entretanto, tinha que passar com o carro zero, recém saído do consórcio, dentro de um rio.


Por inexperiência ou afobação, acelerarei demais na hora errada. O carro embicou e a água subiu tanto que escorreu pelo capô. Não deu outra. O carro passou o rio, mas apagou do outro lado. E nós ali, num dia de semana, mas num lugar ermo, longe de tudo, sem comunicação e sem socorro.


Tentei varias vezes e segui o que alguém sugeriu: esperar um pouco. Passeamos por ali, com um olho na paisagem e o outro no alternador molhado e quando voltamos, tentei mais uma vez e como por mágica, o carro pegou.


Passado o susto, no outro dia, começamos o processo da volta, conforme o planejado pelo mapa Quatro Rodas, dobrado no porta-luvas: pelo litoral.


Depois de conhecermos a linda praia de Torres, tínhamos reservado um hotel em Laguna. Ingenuamente solicitei um quarto com vista pro mar. Chegamos à noite e descobrimos que o tal hotel era uma espelunca. Apesar de estarmos praticamente sozinhos ali, vista pro mar, como eu desejava era possível, desde que esticasse o pescoço na hora de tomar banho.


Quando fomos deitar, descobrimos que os lençóis, não só tavam sujos, como eram furta-cor, algo entre o cinza e o marrom. Liguei pra recepção e mandaram outros. Com a mesma cor e o mesmo aspecto.


Malhas não nos faltavam. Raquel dormiu com uma blusa com capuz bem puxadinho e eu recobri o travesseiro com uma camiseta, tudo pra evitar um contato direto com aquilo.


Pra compensar, o último ponto da viagem, tinha sido planejada pra ser em alto estilo: em Caldas da Imperatriz, no mesmo hotel onde cinco anos antes, tínhamos passado nossa Lua de Mel. Desfilamos por lá, cheios de conforto e charme, toda nossa coleção de malhas e agasalhos.


Foi uma grande experiência a dois e assim, aprendemos mais um pouco sobre a vida, pra podermos, dois meses depois, virarmos pai e mãe.


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