Corpo e Alma

Por que que elefante não entra no exército? Porque tem pé chato. Era isso que eu ouvia enquanto era obrigado a visitar o Dr. Scholl's na Rua Riachuelo regularmente, usar botas e palmilhas diariamente e dar chutes nas canelas dos meus irmãos mais velhos frequentemente.


O pé chato foi corrigido, de defeito, ficou apenas os dedões, que merecidamente levam este nome e que em muitos Bambas e Congas, fizeram furos, muito antes destes tornarem-se velhos propriamente ditos.


As pernas, que sempre foram muito longas e um pouco valgas, sempre tornaram garantida minha presença no último lugar nas filas e alinhamentos pra fotos no D. Pedro II e minha ausência nos esportes em geral.


Quando me alistei, na Praça Oswaldo Cruz, apesar de não ser mais o feliz proprietário de um par de pés chatos, consegui fugir pela tangente, do alistamento militar.


Naquela janela de arco, no canto à direita da fachada, onde hoje é a cozinha de um dos restaurantes da praça de alimentação, era a sala de exame, onde todos alinhados e pelados eram inspecionados, na inspiradora posição de Homem Vitruviano.

Saí da fila, e com a uma mão na frente outra atrás, entreguei um papel dobrado. O sargento leu o escrito e graças à alegação de uma asma imaginária, pra minha alegria, mandou que eu saísse da sala e fui incluído no excesso de contigente.


Certa vez, durante o treino com barra, frente ao espelho, na academia Swimex, os braços tremiam com o peso.


Negão, o então treinador e hoje meu amigo, diminuiu o peso e a trepidação continuou. Parecia uma nave entrando na atmosfera.


Ele foi gradativamente diminuindo a carga e nada, a tremedeira continuava. Acabei fazendo o exercício apenas com a barra e mesmo assim, tremia tudo.


Tive uma ideia. Desisti de manter a barra na horizontal. Experimentei com ela torta e Bingo! Nenhum tremor!


Descobri, naquele momento, que meus braços não são exatamente do mesmo tamanho. Fazendo exercício com a barra levemente torta, tudo ficava certo, como uma dobradiça bem azeitada.


Numa outra vez, preocupado novamente em dar atenção ao casco do navio, e porque não dizer, pra saúde do capitão, tava novamente numa outra academia, desta vez, em Guaratuba.


Novamente, sentado frente ao espelho, cara a cara com o inimigo, fazendo um daqueles exercícios pras pernas, que devem facilitar a hora do parto, reparei na minha cara.


Notei que tava cada vez mais parecido com o desaparecido e esquecido Cerveró, com um olho no peixe sobre a mesa e outro no gato, no chão.


Não sei que importância tudo isso tem ou deveria ter. Lembro, entretanto, que numa peça de Gorky, que fiz, era dito que se o homem valesse somente pela sua força, qualquer cavalo valeria mais que qualquer homem.


Penso que não sou muita coisa, mas também, imagino, que nada, também não sou. Do pouco que possa ser, imagino que devo ser algo mais que carne, ossos, água e simetria.


Espero que não teja enganado e que no fundo, algum dia, tenha algum valor, mesmo que seja pra um bom exemplo de mau exemplo...


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