Constitucionalissimamente

Numa manhã, Maurício e eu, a caminho da Federal, passando de moto pela Cruz Machado, por alguns centímetros, não atropelamos Ulisses Guimarães que saía de um carro preto.


Se não fosse os poucos centímetros que separaram o constituinte de nós, nossas caras estariam, na manhã seguinte, estampadas em todas as páginas dos jornais: universitários curitibanos derrubam o Senhor Diretas.


Ele fez como muitas pessoas idosas fazem: não prestam atenção, abrem a porta, e simplesmente saem do carro. O quase acidente acabou ocorrendo de fato comigo, um tempo depois, numa véspera de Natal.


A coqueluche daquela época era a Rainha dos Baixinhos. Havia o Xou da Xuxa, o Disco da Xuxa, a Boneca da Xuxa e até o Bolo da Xuxa e era este, que naquela tarde, eu tinha ido buscar pro jantar de Natal.


O bolo era constituído de um amontoado considerável de marshmallow ou merengue, não sei direito, pois sou da turma da nata fresca, com um cacho de uva Itália em cima.


Morávamos na Travessa Rafael Greca, no Água Verde e tinha ficado incumbido de ir ao Bom Strudell, que ficava no Batel, pra buscar o tal bolo.


Vinha lentamente pela República Argentina, mais cuidadoso que um casal de porcos espinhos namorando, por causa do bolo, quando não mais do que de repente, uma idosa abriu a porta do carro, saiu dele e, do nada, apareceu em minha frente.


Freei o que eu pude frear, mas não foi o suficiente. Atropelei a senhorinha. Com a freada o bolo virou uma quiçaça, um amontoado daquela gororeba branca, com uvas enfiadas pra todo lado, enquanto, a velhinha virou um amontoado colorido, amofanhado no meio fio.


Pensei: meu Deus! Matei a velha!! Saí correndo do carro desesperado e fui acudí-la. Perguntei: - a senhora tá bem? Ela respondeu: - meu sapato, onde tá meu sapato? Pegue meu sapato!!


Nisso, apareceu a família dela, que desceu do carro estacionado junto à canaleta do expresso: - muito obrigado por sua atenção! Agora, pode ir embora! Você não tem nada a ver com isso!


-Como assim? Não tenho? Eu que a atropelei! -Não, meu jovem. Foi ela quem o atropelou, ao sair do carro daquele jeito! Não é mãe?? Eu não falei pra senhora esperar?


O filho e a nora decretaram que eu deveria embora e que me preocupasse apenas em passar o Natal com minha família.


A contra gosto, obedeci, mas antes peguei o número de telefone deles. Telefonei depois. Ela tinha quebrado o fêmur, mas tava bem. Tentei mais uma vez, num outro dia e eles praticamente pediram pra que nunca mais ligasse. Pois eu não tinha que me preocupar com ela…


A Constituição foi promulgada. Ulisses Guimarães escapou da motocicleta, mas não do helicóptero. Eu escapei da família da velhinha atropelada, mas não da cara de frustração de toda a família, ao ver o tão esparado bolo desmantelado.


Minha experiência em atropelar idosos não parou por aí. Descendo a Nilo Cairo, num outra ocasião, um senhorzinho distraído se jogou, com chapéu e tudo, na frente do meu fusca branco. Mas essa é um outra história, bye…


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