Clara e Bela

Quando era criança pequena no Seminário, gostava de ler gibis. Devorava as revistinhas da Turma da Mônica, da Luluzinha e as da Disney.


Lembro que numa daquelas histórias, deliciosas e antropomórficas, que se chamava Uma Casa Clara e Bela, Clarabela, uma expansiva vaca, arregimentava Pateta, um atrapalhado cachorro, e Horácio, um simpático cavalo, pra a ajudarem na tarefa de limpar a casa dela.


Os três davam duro, limpavam tudo, enceravam o chão, cortavam a grama e podavam os arbustos.

Depois de terminarem o trabalho hercúleo e jaziam exaustos nas espreguiçadeiras, ela murmurou: Obrigada rapazes, ainda bem que vocês vieram me ajudar, tava tudo tão sujo... Amanhã é o dia da diarista e ela é a maior fofoqueira da paróquia...

Cada vez que vinha diarista em casa, tínhamos que trabalhar pesado. Parecia que tinha passado um furacão pelo lugar.

Eram portas e janelas que deveriam estar trancadas, mas que ficavam abertas e ventarolas, que poderiam ficar abertas, mas que eram fechadas.


Escadas, panos e produtos de limpeza esquecidos pela casa, pra serem guardados. Tapetes virados pra baixo, pedindo pra serem desvirados. Tampas de ralo e grades do fogão, fora do lugar e invertidas pra serem arrumadas.


Sabonetes fora das saboneteiras, camisas penduradas no varal pelo colarinho, persianas amassadas, pra serem desentortadas e coisas quebradas pra serem consertadas e coladas.


Naqueles dias sempre pensava no desespero de Clarabela e sua dificuldade com a chegada da diarista.


A nossa dificuldade era com a partida. Não adiantava reclamar à ela, pois corríamos o risco de perdê-la.


Não poderíamos também, reclamar ao Pai Eterno, pois poderíamos nunca mais conseguir outra, nem melhor, nem igual, talvez pior.


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