Chalalá

Houve um tempo em que, num processo nada democrático, investido mediante a ausência de sufrágio universal, escolhido pela sanção das autoridades do Tribunal Regional Eleitoral, tal qual o coronel Steve Austin, fui nomeado biônico. Como diziam os antigos, no meu tempo, a gente não se voluntariava, era convocado. E assim fui eleito mesário biônico, não uma, nem duas, mas três vezes!


Chalalá! Que gente era essa! Chalalá! Que gente má. Colocar alguns jovens escolhidos e marcados na testa, como mesários, por três vezes em seguida, sem dó...


Minha tripla experiência como mesário ocorreu sempre no mesmo local: na velha, e hoje extinta, Sociedade Seminário, na Mário Tourinho.


Naquela época, a esquina da Mário Tourinho com a Nossa Senhora Aparecida, hoje enfeitada com a trincheira que a prefeitura fez, com ritmo de cágado, mas sejamos francos, ficou supimpa, tinha a presença daquele Bamerindus, logo seguido da Sociedade Seminário.

Hoje, o local ocupado pela antiga Sociedade e uma velha loja de vendas e consertos de grandes máquinas e tratores, que ficava ao lado e aos fundos dela, virou tudo, o imenso estacionamento, que já tinha sido de um supermercado e hoje é o endereço de um mega petshop.


Imagine um local totalmente inapropriado pra servir de zona eleitoral. Este local era a Sociedade Seminário.

Utilizada na época pra grandes agitos noturnicos do estilo discotheque, o amplo salão, cheio de pequenos lances de escadas, que tinha teto e paredes pintados de preto, além de não ter janelas, possuía alguns fracos focos de luz, pendurados aqui e acolá.


Se não fosse trágico, até que seria divertido, ver o povo todo, saindo de uma manhã de domingo ensolarada lá fora e adentrando num lugar escuro como a caverna do Bin Laden, pra escolher quais dos quarenta ladroēs seriam os eleitos.


Como aquilo tudo era muito escuro e havia degraus espalhados por toda parte. Pra quem já tava com a vista acostumada era tranquilo, mas pra quem vinha de fora, era tombo certo.


Pra situação ficar ainda pior, a média da idade do público votante ali, devia girar em torno de uns setenta e cinco anos. Na minha sessão tava o eleitor mais velho da zona eleitoral: seu Lauro, o alfaiate que fez meu terno de casamento, com uns noventa e cinco e ainda na ativa.


Ser mesário até que não foi tão ruim. Foi lá, por exemplo, que conheci o Marcel, que tinha sido gerente do Banco Meridional, virou meu contador e até hoje é meu amigo.

No tempo da velha Sociedade Seminário, todos votavam, mesmo que munidos de esperança, literalmente no escuro, num caí não cai, numa corrente que pega gente, quem tem medo que saia da frente...


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