Busca Frenética

Jânio Quadros era um homem incomum. Ninguém sabe até hoje, o que passou em sua cabeça quando, forças ocultas, o proibiram de continuar presidente da república ou quando, anos mais tarde, como prefeito, proibiu O Último Tango em Paris nos televisores da cidade de São Paulo.


Ainda bem que moro em Curitiba. Assim como o resto do Brasil, naquela noite tudo o que eu queria ver era o Marlon Brando amanteigar a Maria Schneider.


Após assistir a sessão na casa de Raquel, então minha namorada, era hora de voltar pra casa, fazendo a longa ponte-térrea Centenário-Seminário.


Já fazia uma semana que não precisava mais pegar três ônibus pra ir ou pra voltar. Após um ano guardando dinheiro, eu era o feliz proprietário de um belo Chevette 76 branco.


Peguei a chave da viatura, abri a porta da sala e surpresa, o carro sumiu, desapareceu, escafedeu-se!


A primeira reação que tivemos foi sair correndo a pé, sem rumo pelo bairro. As lágrimas rolavam de nossos olhos e parecia que um buraco havia sido escavado, em questão de segundos, sob nossos pés.


A segunda reação foi voltarmos e ligarmos pra policia militar, civil, rádios taxi e todas as emissora de rádio.


De madrugada, uma luz se acendeu. Ligaram dizendo que o carro tinha sido visto por um taxista na Vila Nossa Senhora da Luz.


No dia seguinte, meu eterno amigo Mauricio levou meu pai e eu no carro dele, numa busca sem fim, que só parava quando telefonávamos pra polícia de algum orelhão.


Atravessamos toda a região sul da cidade até o alto boqueirão. Depois de muitos e inúteis quilômetros rodados, com a triste luz do fim da tarde no horizonte, voltamos pra casa.


Foi quando o telefone tocou pela segunda vez. A policia tinha localizado o bostinha em São José dos Pinhais.


Estava sem gasolina e completamente inteiro. Até uma folha de Letraset que eu havia comprado, estava lá intacta enroladinha no banco de trás.


Nada disso precisava acontecer, mas aconteceu. Não sei o que se passava na cabeça de Jânio Quadros, nem o que ele aprendeu com tudo o que fez ou com o que não deixou fazer naquela noite.


Eu aprendi que as coisas que conquistamos tem um valor imenso, mas muito pequeno, se comparado com nossa coragem e na confiança em nós e naqueles que amamos e sabemos que podemos contar pro que der e vier.




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