Bolhas de Sabão

Andar pelo bairro onde passamos nossa infância faz com que lembremos de coisas que ali vivemos.


Comigo acontece isso e o lugar que faz brotar tais lembranças é o Seminário. Passar por ali e ver o prédio do antigo seminário, que aparentemente dá nome ao bairro, lembra-me que no portão, que hoje dá acesso a Editora Positivo, havia um mata-burro feito com trilhos de ferro.


Aquilo era liso até em dia de sol. Passar por ele pra ir à missa na capela, só com muita fé. No fundo do altar, no formato de meia lua, havia um varão que o contornava, com uma espessa cortina verde garrafa escuro.


Divagava durante a missa, pensando o que teria atrás daquela cortina. Imaginava uma farta distribuição de presentes pras crianças ali presentes, no fim da missa. Pena que isso nunca aconteceu...


Gostava quando a missa e homilia eram feitas pelo padre Albano. Depois ele virou Bispo-Auxiliar de Curitiba, quando fez minha primeira comunhão, na Igreja do Barigui e depois virou Bispo de Guarapuava e de Londrina, onde , mais tarde, faleceu. O outro padre que alternava com ele, que não me lembro o nome, tirava o relógio na hora de falar, ficava com ele na mão, mexendo e brincado com ele e aquilo me desconcentrava.


Outra coisa que me fazia viajar era o parquet da capela, com desenhos hexagonais feitos com três tipos de madeiras claras e escuras. Em vez de prestar atenção no sermão, ficava forçando a vista fazendo com que os desenhos saltassem e ganhassem formas tridimensionais.


Lembro que ao lado da capela, havia uma barbearia onde eu cortava o cabelo. A casa do barbeiro era anexa e da janela se via o jardim. Não me lembro de ter visto um jardim mais bem cuidado, nem de uma grama tão verde quanto aquela. Todo aquele Éden hoje virou o estacionamento do Mc Donald's.


No Salão, além das cadeiras de barbeiro, da marca Ferrante, que eu achava o máximo, com aquele suporte de metal pra colocar os pés, haviam garrafas, nas janelas e junto aos espelhos, com cobras dentro de líquidos coloridos. Aquelas garrafas, de tamanhos e cores variadas, me deixavam na dúvida se gostava ou não delas.


Lembro do Cine Marajó, ali perto, hoje transformado numa galeria comercial. No lugar da tela, onde tantas comédias, matinês e faroestes assisti, reina hoje um cartório, onde me casei e registrei meus filhos. Lembro que, quando piá, chorava pois queria ir no cinema ver o leão da Metro e escutar o sino que tocava antes dé cada sessão. Mais uma pra infindável lista de antecedentes criminais do pirralho.


Na frente do cinema tinha a Mercearia do seu Bonatto, que foi demolida recentemente e com certeza virará mais um prédio fora do comum. Nela, ganhei do Paulo, meu falecido irmão, meu primeiro kichute. Que alegria foi aquele dia..


Tinha o Bar da Vizinha, que agora é uma loja qualquer e o castelo, que ficava ao lado de minha casa. Na época, soturno, misterioso, envolto em enormes ciprestes, o castelo causava arrepios em toda piazada caso a bola fosse jogada pra dentro de seus muros. Menos pra mim. Lá eu era amigo do rei, ou melhor do lacaio. Bomfim, o destruidor de bolas, a quem todos chamavam de Mal Começo, era meu amigo.


Enquanto vendia pão e Imperador sem filtro pra ele, sempre puxava conversa pra tentar descobrir histórias sobre o castelo. Depois que o imenso terreno foi partido ao meio, o enigmático castelo virou uma popular casa de frango frito e hoje não passa de uma pizzaria qualquer.


Quantas coisas as ruas que nos viram crescer têm pra nos contar e isso passando de carro. Outro dia andei a pé por ali. Eram várias lembranças que pipocaram e desapareceram logo em seguida, como bolhas de sabão. Mas não totalmente. Ficam guardadas em algum lugar, teimando em fazer parte da gente...


Antiga sede do Seminário Maior Rainha dos Apóstolos | Foto Clarissa Neher


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