Bodas

Em 1997, meus pais fizeram Bodas de Ouro. Na linda festa que preparamos pra comemorar a tão esperada data, eles tavam nas nuvens.


Além de parecer, pela empolgação, que era o próprio casamento que se realizava novamente, o mais bonito pra mim, é que o amor deles parecia ser o mesmo, talvez maior, cinquenta anos depois.


Zito, meu irmão mais velho e eu, fomos os escolhidos pra falar lá na frente, durante o jantar.


Esses tempos, mexendo nuns guardados, reencontrei o texto que escrevi, e tive a felicidade de ler diante dos dois, que me olhavam com os olhos brilhando, e pra todos os trocentos convidados.


Se tiver tempo ou paciência ou interesse ou tudo isso junto, eis o texto que escrevi naquela ocasião:


“Fui o último a chegar. Quando nasci a família tava completa, quer dizer, a vida a dois, há muito tempo deixara de existir, e comigo, a família completou seis filhos. Muito chão havia pela frente e, se Deus quiser, muito ainda haverá.


Olho pra trás e, tomando a liberdade de falar por meus irmãos, relembro muitas coisas. Umas alegres, outras tristes. Umas importantes, outras banais. Umas inesperadas e muitas inesquecíveis.


Lembro de viagens. Todos juntos na Kombi. De parar dentro do rio pra molharmos os pés. De orações intermináveis, Pai-Nossos, Ave-Marias. De caminhões, de cheiro de lona, de paisagens maravilhosas, de casas mal assombradas, de gosto de pó, de contar as cidades que faltavam pra chegar, da ponta da antena da rádio anunciando a chegada em Siqueira Campos. Novamente orações pra agradecermos a vitória de vencemos mais uma jornada e chegarmos vivos.


Lembro das manhãs de domingo, da conversa em torno da mesa, a casa cheia de gente e o desejo de que aquela manhã nunca terminasse (não só porque sempre detestei domingo à tarde, por ter gosto de segunda-feira), mas porque pra mim, sentir todos juntos, sem pressa, com todo o tempo do mundo pra jogar conversa fora, sem nada muito importante pra fazer, era uma sensação gostosa.


Lembro que nosso divertimento era chorar. Chorávamos copiosamente ao lado da velha radiola, escutando histórias de Santa Bernadete e outras não tão tristes, que não sei porque, nos tocavam tão fundo.


É engraçado, mas o passado tá muito com a gente, no nosso dia-a-dia e sinto que estará cada vez mais na medida que envelhecermos e nos tornarmos mais maduros.


Aquilo que recebemos de nossos pais, com certeza, passamos pra nossos filhos. É inacreditável como tudo fica passeando permanentemente em nossas mentes. Passeios, viagens, orações, vitórias, dias ensolarados, noites de sereno, histórias maravilhosas, coisas adoráveis e também coisas que não precisavam ter acontecido.


A verdade é que somos hoje, um reflexo da vida de duas pessoas que não somente nos colocaram no mundo, como também, nos mostraram pelo que são, pelo que pensam e pelo que fazem, qual o caminho certo.


Pai, o senhor nunca precisou nos dizer o que fazer na vida, o senhor fez. Trabalhou, lutou, errou, acertou, caminhou, caiu, levantou, venceu. Cada gesto seu, cada palavra é um pouco daquilo que Jesus começou a nos ensinar e pessoas especiais como o senhor, continuam este trabalho, a cada dia. Lembro-me sempre de vê-lo trabalhando, sempre contente, sempre confiando em Deus.


Procuro no meu trabalho, no meu casamento, na minha vida, sempre imaginar: se fosse com meu pai, como ele agiria? Procuro humildemente, imitar seu gestos, passando pra minha mulher e minha filha, aquilo que sempre recebi do senhor: amizade, respeito e amor.


Mãe, se tivesse que descrevê-la em uma só palavra, ela seria: sabedoria. Seus ensinamentos nunca saem de minha mente: Quem encontra um amigo encontra um tesouro; Cuidado com fulano, não passa de um colega; Inteligente é aquele que sabe viver; Cada um na sua casa, é rei; A feia vai, a bonita fica; Quem quer faz, quem não quer, manda; O olho do dono engorda o porco; Quem oferece não quer dar...


Sua sabedoria, seu jeito simples, sua maneira clara e sincera de ver a vida, seu olhar que enxerga longe, sempre nos alertando e nos ensinando a ver aquilo que não víamos e que depois se torna tão claro pra nós como a luz do sol.


Lembro das conversas que sempre tivemos a respeito da vida, o respeito que a senhora tem por nossas vidas, por nossas decisões, nossas diferenças, nossas ambições, nossas limitações, nossas vontades.


Muito do que somos vem de suas palavras, de seu exemplo, daquilo que sempre, de uma forma ou de outra, nos ensinou. Da sua fé inabalável, de sua força interior, que tudo suporta, e somente depois é que amolece, fazendo nos lembrar que a senhora, assim como os outros mortais, tem também fraquezas.


Pai e Mãe, obrigado por tudo aquilo que somos e também por aquilo que não somos. Obrigado por nossos sonhos, pela nossa vida. Temos certeza de que Deus está muito contente por vocês.


Amigos, parentes, genros, noras, filhos e netos, estão aqui hoje reunidos, celebrando com alegria esta união que, há 50 anos, ele abençoou e agora abençoa novamente, com a certeza de que vocês levaram, levam e levarão, por muito tempo ainda, uma vida que é a materialização do seu amor. Obrigado.”


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