Bodas

Diz o velho deitado, que o noivo não pode ver a noiva no dia do casamento. Mudamos um pouco este dito: pra nós, o noivo não poderia ver a noiva sair do cabeleireiro. Levá-la até lá, no nosso código, não haveria nenhum problema.


Deixei Raquel no salão, na Praça Osório e somente a veria quando entrasse de noiva, na igreja, naquela noite.


O dia seria corrido. Havia ainda, muitas coisas pra serem resolvidas pra podermos viajar e uma a uma, as fui resolvendo.


Ainda no centro, uma Periquita, tentou me aborrecer, sendo grossa ao me dar uma multa pelo preenchimento errado do cartão, na Emiliano Perneta, num local onde hoje, nem é possível parar, quanto mais estacionar.


Você não vai conseguir estragar minha manhã, pois hoje é especial, é o dia do meu casamento, disse à infeliz...


Já em casa, tava preocupado com os sapatos. A sola era de borracha, como eu sempre gostei, mas era novo e escorregadio, como não gosto até hoje.


Tratei de pô-lo, pra gastar um pouco e me acostumar com ele. Lembro que me criticaram ao me verem usando os sapatos de noivo antes da cerimônia.


Quase chegando na hora de ir pra igreja, momento de tirar fotos com meus pais, bonitos, orgulhosos e um pouco nervosos.


Não queria ficar nervoso. Fui dirigindo o Chevetinho branco tranquilo, mesmo num trânsito ruim de sábado à noite, pensando no que tinha dito à Periquita naquela manhã.


Na porta da igreja, Marta, minha irmã, também tentou me deixar nervoso, mas não conseguiu. Ela temia que eu olhasse pra trás e visse Raquel já esperando no carro...


Eu não queria olhar. Não queria estragar aquele momento. E o tal momento chegou.


As músicas do casamento eram todas do filme A Noviça Rebelde. A marcha triunfal de Maria foi entoada e os pistões encheram o lindo espaço da Igreja de Santo Agostinho.


A porta de vidro se abriu, neste momento fiquei um pouco nervoso e finalmente Raquel apareceu. Danada, pensei, mentiu pra mim: que chapéu que nada, tava com uma coroa e um vistoso véu na cabeça.


Veio caminhando séria, linda, decidida, sem sorriso, sem olhar pros lados, sem tirar os olhos dos meus olhos.


Só quando chegou perto e, instintivamente, tasquei-lhe uma bitoca em sua boca, quebrando todo o cerimonial, ela sorriu nervosa pra mim.


Neste dia, foi a última vez que a vi, vindo de longe, caminhando até mim.


Hoje, faz trinta e três anos, a idade de Cristo, que a vejo ao meu lado, sempre comigo. A minha mulher, que amo.


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