As Missões

Foi no Ano da Graça de 1975 que troquei o Grupo Escolar Dom Pedro II pelo Colégio Paranaense Marista, que deixava de ser um tradicional Clube do Bolinha, pra receber meia dúzia de três gatas pingadas, que caiu uma grande nevasca em Curitiba e que houve as Missões Redentoristas, que agitaram uma boa parte da cidade.


Na paróquia do Seminário, pelo menos, o trabalho missionário que entoava: "Vinde pais, vinde mães, vinde filhos, vinde todos às Missões", mexeu com o bairro todo, conquistando famílias inteiras.


Foram dias de muitas atividades, até pra pessoas que nem pisavam antes na igreja com tanto afinco. A paróquia mais próxima dali era a Igreja do Barigui. Foi programado, que duas procissões, partindo uma de cada paróquia, se encontrariam numa terra de ninguém, no caso, uma praça a meia distância delas, no Jardim Centenário.


Ali aconteceria o encontro dos dois andores, que levariam as duas imagens. A comparação entre eles seria inevitável e a concorrência, natural. Pra nós, era como um jogo tipo Cidade x Cidade.


Uma verdadeira Guerra Santa! Gusto, meu irmão, eleito como uma espécie de carnavalesco, seria o responsável pelo andor do nosso exército.


A partir de uma base de madeira, criou, com varas de vime vergadas, quatro colunas que desenhavam arcos, que ao se cruzarem no alto, formavam uma abóboda sobre a santa.


No chão, aos pés dela, um revestimento com arminho branco, que chacoalhava levemente com o andar do andor, fazendo com que a Santa parecesse flutuar sobre nuvens.


Quatro fortes lâmpadas automotivas, instaladas na base de cada coluna faziam com que a santa brilhasse como um ser celeste.


Se houvesse uma real competição, teríamos sido, seguramente, os vitoriosos.


O único problema da tal procissão, é que ela seria justamente no dia de minha prova de geografia.


Entre fazer a prova e deixar de ajudar na preparação de tudo e arriscar, preferi a segunda opção, acreditando que como o colégio era católico, não haveria problema.


Houve. O professor enrolou até o fim pra dar a minha nota. Aquele ano seria o último em que me sairia bem, a ponto de passar por média em tudo.


Numa cerimônia, com pompa e circunstância, os alunos dignos deste feito em todo o colégio, receberam a medalha de Honra ao Mérito. Eu não recebi.


Havia uma nota em branco em Geografia, desde o meio do ano, no meu boletim e isso fez falta.


Na semana seguinte, durante a recuperação, o professor então preencheu a lacuna com a média das minhas outras notas.


Na Secretaria, recebi finalmente minha esperada medalha. O Irmão Ignácio, o reitor a colocou em meu pescoço enquanto o Irmão da Secretaria, aplaudia.


Fiquei feliz e triste, porque ninguém, além de nós três, viu a cena.


Hoje penso que valeu a pena. Se não tivesse vivido aquilo tudo, não teria nada pra lembrar, nem pra contar...



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