Araçá

Era público e notório: Paulo, meu irmão, tinha ganhado um Chevette zero quilometro no Super Atlético. Ganharia seria o termo mais apropriado, já que o caminhão com o lindo sedã rosa pantera, cheio de faixas promocionais, não parava de desfilar pela cidade, passando diversas vezes na frente de nossa casa no Seminário, com alto-falante, mas sem parar, pra entregar o prêmio.


Até que um dia parou e finalmente meu irmão pode entrar no carro ligar a chave e acenar rindo para todos os fotógrafos de todos os jornais e emissoras de televisão presentes naquela tarde festiva em frente à panificadora.


A festa continuou noite adentro, regada a muito chopp. Uma garagem, atravessada no jardim, embaixo das árvores, foi construída pra acomodar o carro novo.


Uma tarde, estávamos Renê, meu primo e eu, empoleirados numa árvore, catando e comendo araçá no pé. Pega um come, pega outro, joga fora e assim por diante...


Nossa tarefa tinha ficado bem mais fácil. Havia uma parede onde podíamos caminhar nas alturas, o que deixava as frutas muito mais perto de nós.


Não havia apenas uma parede, havia um telhado inteiro, que pra nós servia como um terraço sob as árvores frutíferas.


Estava sorrateiramente ali, no meio do telhado, quando estiquei o braço pra pegar mais um araçá, logo ali em cima, quando escutei o estrondo e vi meu mundo, literalmente, cair.


Na verdade, quem caiu fui eu. Tal e qual aquela tradicional cena de desenho animado, onde alguém, com um serrote, corta um buraco em torno de um outro alguém.


Um buraco ao meu redor foi desenhado e eu despenquei exatamente em cima do tal Chevette cor de rosa. Foi um bafafá. Era caco de telha de amianto pra tudo que é lado e eu só não fiquei pior na fita porque poderia ter me machucado mais e os estragos no carro também podiam ter sido maiores.


Até hoje, cada vez que vejo um Chevette ou uma garagem com telhado fino, sinto um gosto de araçá na boca. Por que será?


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