Amnésia

Era a tarde de um típico sábado chuvoso em Curitiba, preguiçoso, cinzento e turvo.


Saí do Seminário pra ir pra casa de Raquel, que ficava lá longe, na Vila Centenário, perto da Coca-Cola, mas antes tinha que deixar meu pai na casa de minha irmã, nas Mercês, perto da Telepar.


No caminho, que zigzagueava por um atalho de travessas não muito conhecidas do Bigorrilho, seguia cautelosamente com meu Chevettinho branco, sob toda aquela chuva caudalosa, com meu pai, conversando tranquilo, ao meu lado, quando apareceu, do nada, um carro que atravessou a preferencial sem parar, como quem continuasse andando pela quadra em que vinha.


Não deu tempo de nada. Entrei de cheio na lateral do carro. Num tempo sem ABS, sem experiência e sem cinto de segurança, meu pai e eu nos espatifamos no para-brisa.


Saí do carro, no meio da chuva forte e lembro que vi a frente do Chevetinho toda estoporada, que briguei com o motorista perguntando, em voz alta: o que que você fez? E que olhei pra dentro do carro dele e vi algumas crianças. Foi neste momento que apaguei.


Já num quarto do Evangélico, a uma quadra do ocorrido, lembro que perguntei ao Zito, meu irmão mais velho, que é médico, e estava ao meu lado, junto de Raquel: - e as crianças, elas estão bem? - Sim. Respondeu ele. - Você já perguntou isso várias vezes. Aliás, isso é a única coisa que você fala, há horas. -e o pai? Cadê, o pai? Ele está bem? -sim, tá tudo bem. Aliás, ele tá melhor que você...


Soube depois, pois me contaram, que meu pai tinha quebrado o painel do carro com joelho e que tinha levado treze pontos na cabeça. Ele, mesmo com isso tudo, tava bem.


Eu, que tinha levado apenas cinco pontos na testa, perdi a memória e até hoje, não me lembro de nada, desde que vi as crianças no carro, até que começasse a perguntar por elas, já internado no hospital.


Num tempo sem celular, a comunicação não era tão imediata como hoje. Minha mãe demorou a ser informada e Raquel, mais ainda.


Quando soube, pediu ao seu tio pra levá-la ao Evangélico. Antes, resolveu telefonar pra ter informações sobre o namorado. A enfermeira perguntou: - Ah, aquele que sofreu um acidente e perdeu um dedo do pé? Raquel não sabia se ficava triste pelo dedo ou se feliz por eu ainda estar vivo.


Quando chegou lá, soube que a história do dedo era mera fakenews, mas me encontrou, repetindo, repetindo, repetindo, como num disco riscado: e as crianças? E as crianças? Talvez, nesse momento, tenha pensado que um dedinho no pé fosse menos ruim.


Depois de algumas horas, fazendo as mesmas perguntas, voltei à consciência. Soube que o cara era divorciado e que tinha acabado de pegar os filhos pro final de semana a que tinha direito.


As crianças estavam justo naquele momento de competir pela atenção do pai, pra ver quem conseguia contar algo mais surpreendente, quando ele se distraiu e passou a preferencial, literalmente, batido.


Ninguém se machucou seriamente no outro carro. Meu pai foi o que mais sofreu, com o joelho e o grande talho na cabeça. Eu, entretanto, competindo com ele, consegui surpreender a todos, com minha amnésia, com a temporária perda de um dedo e a possibilidade de ficar, eternamente, mais chato do que sempre fui.



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