Aconteceu Naquele Domingo

Atualizado: 8 de jun. de 2021

As tarde de domingos eram passadas inteiras no jardim de nossa primeira casa, no Seminário. Meus irmãos, amigos, primos, primos do amigos, amigos dos primos e eu, ali sentados ou deitados na grama, sob a palmeira, heroína da resistência, com a vitrola tocando, sem parar, no último volume.


Eram longas tardes onde a vida parecia passar num ritmo diferente de hoje. Pela época, pelos costumes e pelas idades, os personagens até parecem outros.


Lembro que numa daquelas bucólicas tardes, Eduardo, hoje meu cunhado, naquela época, um cabeludo loiro, com cabelos além dos ombros, quando deveria lutar pela aprovação do meu pai pra namorar Marta, minha irmã, resolveu dar um show automobilístico.


No meio daquela pasmaceira, não mais do que de repente, viu-se o Fusca branco do Eduardo surgir com ele na direção, com Gusto, meu falecido irmão, de passageiro e Serginho, um dos catarinas que moravam em frente à nossa casa, no banco de trás, voando baixo na famosa curva, depois do Paranaense.


A intenção deles era, apenas, passar na frente de casa, a mil por hora, pra chamar atenção. A presença do Rua XV/Barigui, de frente, na mesma curva e no mesmo momento, fez, contudo, o tal do show mudar o roteiro.


Em alta velocidade e desgovernado, desde a curva, o fusca branco passou com muito mais emoção, cantando os pneus e dando uma sequência de três cavalos de pau, fazendo todos ficarem atônitos com o inesperado espetáculo.


Eduardo, segurava o volante, como se tentasse dominar um touro indomável com as unhas, com Gusto, ao seu lado, branco e Serginho no banco de trás, parecendo o Cristo Redentor, de braços abertos, também branco, segurando nos dois puta que pariu do Fusca, até que finalmente o carro parou, no meio da rua, envolto numa nuvem de fumaça branca.


Demorou alguns minutos pra que a paz voltasse ao local e mais alguns meses pra que o assunto fosse esquecido e Eduardo finalmente fosse aceito por meu pai na família...

Voltando aos discos na vitrola, a maioria eram compactos simples ou duplos, mas invariavelmente compactos.


Naquela época, todos nós escutávamos aquelas músicas internacionais não sabíamos, nem imaginávamos o que estava sendo cantado. Apenas as ouvíamos e as curtíamos.

Da música mais emblemática, que sempre me fez lembrar daquilo tudo, eu lembrava apenas da melancólica melodia.


Dela, especificamente, lembrava apenas da capa do compacto, mas não sabia o nome do grupo, muito menos o da música.


Passei tempos a procurando nas listas dos sucessos de 70 a 73, que era a época que eu imaginava ser a música, sem sucesso...


Esses tempos, mexendo num armário, achei uma sacolinha de papel com alguns compactos. Não é que o danado do disco estava lá?


A recordação que tinha voltou com tudo. Na melodia, que estava intacta em minha memória, agora com letra, nome, sobrenome e as cores e cheiros daquelas loucas tardes.

Por coincidência ou não, a letra fala de um tempo que nunca chegará e eu, do meu lado, me lembrando de um tempo que nunca voltará. Vai entender...



Ouça a música aqui


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