A Sugestão

Atualizado: 8 de jun. de 2021

Nunca gostei de futebol. Pra cada regra, uma exceção: no ano da graça de Nosso Senhor de 1974, sabe-se lá o porquê, talvez por influência da Copa do Mundo na Alemanha ou simplesmente pra fazer amigos e influenciar pessoas, encasquetei que tinha que gostar de futebol. Pior, gostar de jogar futebol.


Ter um objetivo é tudo nessa vida e com ele na cabeça e uma bola no pé, encarei o esporte bretão e virei um dos integrantes das peladas no pátio interno na hora do recreio e no campo de areia no pátio do Grupo Escolar Dom Pedro II.


Não cheguei à glória de um gol, mas lembro que fiz passes certeiros que possibilitaram meu time cantar: É canja, é canja, é canja de galinha. Arruma outro time pra jogar com a nossa linha...


Ganhávamos o jogo e saíamos felizes, suados e realizados, cantando pelo grupo.


O Bamba e o Conga foram jogados pra escanteio e o kichute passou a ser par constante nos meus pés.


Um dia fui parar na Sala da Orientação. Ficava ao lado do temido gabinete da diretora, dona Neide Postarek e em frente ao consultório médico.


Sim, naquele tempo, escola estadual tinha uma sala montada pra que o médico atendesse aos alunos.


A sala da Orientação, como o resto do edifício, tinha um pé direito altíssimo. Tão alto que tinham feito um mezanino metálico pra utilizar melhor a sala, tão minúscula e tão alta.


Lembro que quando entrei, achei aquilo tudo interessante e moderno. A orientadora sorriu pra mim. Era nova no pedaço e perguntou simpaticamente o que eu queria. Disse que gostaria de fazer uma sugestão. Pois não! Disse ela.


Acredito que poucos alunos entrassem ali pra fazer sugestões. Talvez eu tivesse sido o primeiro do semestre, tamanha a euforia com que subiu a escadinha de ferro, atrás de papel.


Desceu, colocou o papel na máquina, jogou o carro pro lado e, pronta pra datilografar, me encarou satisfeita: E qual é a sua sugestão?


Gostaria que na sexta-feira, na próxima aula de recreação, em vez de jogos na sala, fosse futebol. Ela me olhou, como se estivesse apagando um quadro negro imaginário e perguntou desenxavida, enquanto se levantava pra me acompanhar até a porta: Então era essa a sugestão?


Aquele foi meu último ano no D. Pedro II. No ano seguinte atravessei a rua e fui pro Colégio Paranaense. A mudança, como é próprio dos vendavais, varreu minha vida, levando definitivamente esse e todos os outros esportes pra bem longe do meu caminho...


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