A Recepção

Estávamos no interior do Kentucky pra um workshop. Jeannette, nossa anfitriã, pegava-nos às seis e quarenta e cinco da manhã e ficávamos até as seis da tarde em um duro treinamento na empresa dela.


Raquel e eu não tínhamos o direito de nos falar em português, pois nossa líder, além de empresária, tinha sido professora de inglês.


Mais que negócios, acreditava, que aquela era uma boa oportunidade pra aprendermos melhor a língua inglesa e anunciou que na quarta-feira à noite, haveria uma recepção em sua casa em nossa homenagem.


Não tínhamos como fugir. Assim, após o expediente, passamos numa lojinha onde ela realizou seu único toque pessoal na tal festa: comprou uma caixinha de velas em formato de pequenas abóboras, pois era a semana do Halloween.


Vestimos nossas melhores roupas, respiramos fundo e fomos. Quando chegamos em sua casa, a van do serviço de buffet tava saindo. Encontramos tudo absolutamente pronto e impecável. Mesas, talheres, comidas, música ao vivo e arranjos florais. Só faltava mesmo as velinhas de abóbora pra dar o toque da dona.


A casa era a sua cara: por fora, branca e tradicional como todas as outras da cidadezinha. Por dentro, era tudo branco também, porém, contemporâneo, arrojado, arejado, integrado e descolado.


Cavalos de diferentes estilos e escalas, espalhados pelo ambiente, decoravam a linda casa. Todos lá, especialmente ela, amam cavalos.


No horário combinado, a campainha tocou e os convidados, como que saídos de um ônibus de excursão, entravam praticamente em fila indiana pela porta.


Jeannette, Raquel e eu, parados na porta cumprimentando um por um. Uma senhora nos disse ao entrar, que amava uma cantora brasileira, mas não lembrava o nome. Elis Regina? Não. Maria Bethanhia? Não. Cada rosto que passava, nos fazia pensar: o que será de nós esta noite, com nosso inglês macarrônico?


A resposta tava em minha mão. Na taça de vinho. Pensei: a única maneira de encarar a metade da cidade querendo conversar conosco era, pelo menos, dominarmos o assunto.


Após a segunda taça, tudo ficou mais fácil. Antes que alguém dissesse algo, já íamos falando, que linda festa, linda casa, linda cidade e por aí íamos percorrendo caminhos que sabíamos por onde pisávamos.


Volta e meia encontrávamos a senhora tentando, sem sucesso, lembrar o nome da tal cantora. A noite foi passando, eu parecia uma metralhadora giratória, aflito pra atirar assuntos, antes de ser atingido por um tema perdido. Falamos dos Estados Unidos, do Brasil, Curitiba, alguém conhecia Jaime Lerner e o nosso sistema viário, até hoje, exemplar.


Num determinado momento a senhora chegou com os olhos estalados e nos atirou: Her name is Stellinha Egg! Como iríamos lembrar daquele nome tão curitibano ali no meio do coração da América?


Como tudo que vivemos naquela semana, aquela noite foi uma experiência incrível. Sermos o motivo daquela festa, no meio de tanta gente tão bacana e tão diferente da gente, falando uma língua que não dominávamos, foi algo maluco.


Do jeito que começou a festa, ela acabou, com todos voltando pro ônibus imaginário. Ainda bem que na maioria da vezes, sabíamos, pelo menos, do assunto que estávamos falando. A Wonderful Night...


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