A Locomotiva

Há coisas que ficam grudadas na gente, feito tatuagem. Você pega, esfrega, lava, mas não sai.


Mais de vinte anos se passaram. Naqueles dias, além de ver televisão, eu lia a Veja. Numa daquelas entrevistas das páginas amarelas, estava a finada Carmen Mayrink Veiga falando sobre a dor e a delícia de ser quem ela sempre tinha sido.


Não me lembro mais que uma linha da tal entrevista. Uma das respostas dadas, entretanto, a tal referida linha, não há como esquecer. A tatuagem que não apaga, independente da moda vigente.


Carmen, no alto, alto de sua, sei lá o que, discorda do entrevistador, dizendo que sua vida de socialite nunca foi fácil e que sim: " Sempre trabalhei como uma negra!


Pronto! Desde então, quando ouço alguém reclamando que trabalhou ou trabalha demais, exigindo uma retratação, como se o seu trabalho fosse um castigo ou sua labuta, um fardo, me vem à cabeça, dona Carmen, com suas palavras vazias e soltas ao vento do Aterro do Flamengo.


Quase sempre, apenas me lembro e mentalizo a frase tatuada. Nas poucas vezes que a digo em voz alta, tenho que correr pro gol e me defender e me explicar, antes que o juiz apite ou bata o martelo.


Tela de 1959, de Cândido Portinari | (1903-1962)


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