A Limusine

Estar em Nova York, participando de uma competição em design, era muito bom. Na verdade, pra Raquel e eu, apenas poder estarmos ali no centro do mundo, na grande maçã, já seria ótimo.


Sabermos que nosso trabalho foi premiado entre tantos trabalhos do mundo todo, sem dúvida, foi melhor ainda.


Depois de alguns dias mágicos entre ruas, parques, museus, teatros, lojas e passeios inesquecíveis, o dia da partida era inevitável.


Uma fria tarde de domingo, encerrava nossa estada num charmoso hotel frente ao Central Park, num pequeno quarto com linda vista pro fundo do prédio de trás.


Fizemos o checkout e sentamos no lobby, pra aguardar a van. O tempo mostrou suas garras, ele foi passando e nada da tal van acertada pra nos levar ao aeroporto.


Num tempo em que não existia celular, não sabíamos se podíamos contar com nossa condução ou não.


Por mais que fosse domingo, como o aeroporto é longe, precisávamos fazer alguma coisa a respeito. A solução? Um plano B!


Uma limusine prata parou em frente ao hotel e soubemos que seu destino era justamente o aeroporto.


Havia apenas uma passageira, o preço não era muito alto e pensamos, quando teríamos outra oportunidade na vida para andarmos numa limusine? Embarcamos.


O banco disponível era daqueles ao contrário do fluxo, como num vagão de trem.


Descobrimos que uma limusine, inegavelmente, brega do lado de fora, poderia ser muito pior do lado de dentro.


O cheiro de mofo imperava. Assentos encardidos e uma triste, solitária e velha rosa vermelha de plástico, aumentavam a tristeza do lugar.


O triste cenário não acabava aí. À nossa frente, a outra passageira daquele vagão sobre rodas, sentada dramaticamente com as pernas numa abertura de deixar Anna Pavlova roxa de inveja, chorava muito.


Chorava um choro chorado com vontade. Debulhava-se em lágrimas. Era como se não estivéssemos ali. E foi o que tentamos fazer, ignorar a presença dela.


Não era fácil, pois a choradeira só aumentou até chegarmos ao aeroporto. Na fila do check-in, descobrimos enfim a razão da van não ter aparecido.


O horário de verão tinha acabado no dia anterior. Não era a condução que estava atrasada, éramos nós que estávamos adiantados.


Melhor assim. Se não fosse a confusão do horário, nada de limusine, nem rosa de plástico, nem choradeira, nem história pra contar.



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