A Granja

Atualizado: 20 de set. de 2021

Estudamos juntos no Paranaense por cinco anos e logo de cara, Júlio e eu, na quinta-série, nos tornamos amigos. Ele, o mais inteligente da sala, educação germânica e tradicional e eu aquela coisa meio bagunçada, que não evoluiu muito até hoje, neste quesito.


Apesar das diferenças, tínhamos muitas coisas em comum, como senso de humor, arte e música e a amizade vingou.


Como era bom ser convidado pra ir à sua casa, na verdade, uma chácara, chamada Granja do Húngaro, em Campo Largo. Lá, andávamos a cavalo pelo lindo morro ao lado da casa e pelas estradas da região de Itaqui e Balsa Nova. Ía junto ao culto, domingo de manhã, onde o Júlio tocava órgão, colhíamos os imensos cachos de Uva Itália no pé, andávamos por tudo, no meio dos imensos viveiros de galinhas e de porcos.


Irmão Balestro, que também visitou a granja, chamava tais animais de porcos inteligentes, pois tomavam água diretamente da torneirinha, que as empurravam com a boca.


A distância entre a minha casa no Seminário e Itaqui, onde ficava a chácara, na antiga estrada do Mato Grosso, parecia ser bem maior do que hoje. Quando somos crianças a percepção é outra e a estrada realmente, era outra naquele tempo.


Pra mim era uma experiência fascinante, diferente de tudo o que um piá da cidade podia imaginar. Parecia entrar numa outra dimensão, que unia extremos de uma forma única.


Ao contrário do que possa parecer, estar naquele ambiente campestre, não deixava um caipira, como eu, à vontade. Ao contrário, a casa, apesar do estilo rústico, tinha uma sofisticação europeia infiltrada em tudo, que dava a sensação de tar numa das casas de campo da aristocracia germana-húngara.


Lembro que na casa havia dois pianos, sendo um, branco de cauda, que ficava na sala da Oma, um aposento separado do corpo da casa, lindas pinturas, pintadas por ela, pela sala e pelo escritório, que tinha paredes de tijolinho e era forradas de livros.


O nome da granja se referia ao Sr. Árpád, pai de Júlio, um húngaro, inteligente e simpático, que nos deixava muito à vontade em sua casa. Soube mais tarde, que Seu Àrpad adquiriu uma alergia que o proibia de ir à sua própria granja.


Sua mãe, Christine, apesar do nome e do sotaque alemão, nasceu em Curitiba e, muito nova, foi morar na Alemanha.


A comida da minha mãe era muito boa, mas muito simples, ao estilo mineiro. Dona Christine, que chegava da Federal, onde era Coordenadora do Curso de Geologia, na hora do almoço, dava o toque final na comida, pra mim, exótica e ímpar, combinando verduras, legumes e temperos que eu nunca tinha ouvido falar, mas que a deixavam tudo delicioso.


Os assuntos à mesa, diferente da minha casa, pareciam os cadernos da Folha: Arte, cultura, política e economia. Lembro de um almoço, onde dona Christine comentava sobre a nova nota a ser lançada, a cédula do Barão. Ela tentava explicar como a nota também seria vista de cabeça pra baixo.


Num rompante de coragem, arrisquei dizer que seria como uma carta de baralho. Dona Christine, surpreendida com minha comparação, vinda de um piá de bosta, balançou a cabeça positivamente e disse com seu sotaque alemão: oh, que bela analogia! Não entendi muito bem o que ela me disse, mas por sua expressão positiva, pareceu gostar do que ouviu.


Esses tempos fui até lá, mas quase não reconheci o lugar. A casa, que já era antiga, continua preservada e ainda linda, mas o morro, ao seu lado, não existe mais. Foi vendido pra usarem a terra na duplicação da estrada. Este desmanche fez com que o lugar pareça outro.


A passagem de alguém que queremos bem nos faz, além de ficar tristes, pensar sobre a finitude da vida e também, assistir ao filme da presença daquela pessoa por nossa vida.

A notícia do falecimento de dona Christine, há dois anos, fez todo um sentimento de admiração, carinho e agradecimento que tinha por ela, que sempre me recebeu com um lindo sorriso no rosto, brotar em mim. Há coisas adormecidas em nós, mas que não são difíceis de despertar, basta um clic.



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