A Feirinha

Então tava decidido: faríamos bonecas de pano e as venderíamos todo santo domingo na feirinha! Seria um enorme sucesso e logo teríamos uma fábrica. Quem sabe, exportaríamos pra outros países, pro mundo todo, pra outras galáxias...


Inspirados nas bonecas criadas por Giovanna Kupfer, fundadora da então rede de lojas Giovanna Baby, que por sua vez inspirou-se em bonecas old Fashioned, começamos nossa produção.

Com restos de tecidos conseguidos em diversas costureiras, algumas fitas de cetim e muita vontade, Raquel e eu, em vez de só namorar, cortamos, alinhavamos, costuramos, enchemos e arrematamos diversas bonecas.

Combinávamos os variados tecidos, vindos das mais diferentes fontes, com harmonia e ousadia. Os rostos, fazíamos com uma espécie de papier mâché, só que utilizando tecido branco, sobre uma cabeça de boneca modelo que servia de forma.


Depois de secos, pintávamos carinhas simpáticas sobre o tecido. Uma grande touca na cabeça e cabelos de lã ou linha brilhante de bordado, que dava um efeito chapinha. Um laço no pescoço, era o toque final em cada boneca.


Naquele tempo, a feirinha de domingo não era tão grande e pelo que descobrimos, não queriam mesmo que ela crescesse.


Não houve meios de conseguirmos uma credencial pra expormos. Nada, porém, nos deteria. Fomos clandestinos mesmo.


A feira mal alcançava o Largo da Ordem e ali, bem perto do bebedouro, esticamos um pano colorido na calçada e expomos nossas lindas e exclusivas bonecas artesanais.


As poucas pessoas que passavam por ali nem nos viam ou olhavam de soslaio aqueles dois bocós, com aqueles artefatos espalhados pelo chão. Alguns mais distraídos, quase passavam por cima de tudo.


Não desistiríamos tão fácil, mas sentimos que as poucas, raras e esparsas vendas que fizemos, não cobriam o trabalho que dava pra fazê-las.


Foram necessários alguns domingos com muito sol na cabeça pra que chegássemos a conclusão de que as pessoas daquela cidade, daquele país, daquela galáxia, ainda não tavam preparadas pra nossa proposta de artesanato.


Ao conhecer o trabalho de Sonia Singh da Tasmânia, que faz muito sucesso em restaurar bonecas, como as da fotinha, apagando e trocando as expressões de mulheres botocadas e decadentes das bonecas atuais por carinhas infantis e saudáveis, parecidas com as que fazíamos, lembrei das nossas bonecas artesanais expostas sobre os paralelepípedos.


O mundo tá num processo de autodescobrimento. Quem sabe se fosse hoje...


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