A Cobertura

Vivíamos muito bem no nosso primeiro apartamento, na Travessa Rafael Greca, até que a imobiliária resolveu nos enxotar de lá, alegando que o proprietário precisava do imóvel pra uso próprio.


Ele deve ter mudado de ideia, bem rápido, pois na semana seguinte que o deixamos, o mesmo tava sendo anunciado na Gazeta do Povo, por um valor bem mais alto do que pagávamos.


Não demos importância, pois tínhamos conseguido, sem pagar muito a mais, um apartamento maior, no mesmo bairro, com a mesma vista e o melhor: numa cobertura!


Merecemos um prêmio, pois programamos a mudança prum sábado à tarde, justo na hora de um dos jogos do Brasil na Copa do Mundo na Itália.


O Brasil ganhou de um a zero da Costa Rica e nós perdemos de três a zero pros carregadores, numa operação tartaruga pra poderem acompanhar o jogo no rádio do caminhão.


Depois da tempestade, veio a bonança. O lugar era muito gostoso. Exatamente sobre o Shopping Água Verde. Bastava pegar o elevador pra irmos ao Supermercado Parati ou tomar um cafezinho no quiosque. Chegávamos nele e todos os dias a mocinha olhava pra nós e perguntava: dois café?


Tirando o efeito dia da marmota, o café era bom, quentinho e o melhor: ali era o único lugar desse jardim luz, cheio de rosa, que já teve rosquinha recheada de creme, como aquelas dos tiras americanos. Uma delícia...


No andar de cima, a cobertura propriamente dita, havia uma pequena sala e um lavabo. Antes que saíssemos do apartamento, tínhamos vontade de transferir nosso quarto lá pra cima, pra aproveitarmos o terraço.


Uma noite, tava sozinho em casa e resolvi encarar a empreitada. O problema é que o único acesso era uma minúscula escada caracol de ferro.


Foi uma luta solitária e silenciosa. Eu empurrava o colchão, meio dobrado por baixo e ele ia se enroscando em cada degrau e em cada cantinho, lá em cima. Quando escapava de um, caía em outro. Eu, contudo, fui o vencedor da peleja.


Quando Raquel chegou, nosso quarto tinha mudado lá pra cima e eu, todo roxo e arranhado, tava cansado e feliz por ter conseguido.


Valeu a pena: a vista oeste era fantástica. Dava pra ver a Vila Isabel e Santa Quitéria, com incríveis pores do sol. Havia uma churrasqueira, que usávamos de vez em quando, pois era ao ar livre.


Lembro de uma vez, num meio de semana, que tava uma noite tão gostosa de verão, que resolvi passar num açougue e comprar linguiça pra assarmos no terraço, ao invés de fazer café. Quando tava preparando as coisas pra levar pra cima, Raquel chegou com um pacotinho igual ao meu, pois teve a mesma ideia...


Parece que numa época em que não havia celular, nem WhatsApp, já távamos conectados. Foi um tempo bom aquele que passamos naquele lugar e até hoje aquele lugar ainda passa por nós.


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