A Brincadeira

Viemos morar em Curitiba, em 1964, pra que meus irmãos estudassem no Colégio Paranaense. Meu pai, com esta ideia na cabeça e com o dinheiro da venda do que tinha em Siqueira Campos na mão, conseguiu comprar uma casa velha no Seminário, próximo ao colégio.


Numa foto aérea do bairro datada de 1938, que encontrei esses tempos, ela já tava lá, na esquina da Bispo Dom José, com a Dom Ático. Foi ali, naquela casa velha, de frente ao pocinho, circundada por uma grande varanda e por várias árvores velhas, em meio à conversa dos dois bispos que até hoje se encontram na esquina, que eu cresci e morei os primeiros dez anos de minha vida.


Enquanto morávamos nela, meu pai a reformou completamente, conosco lá dentro, por anos, entre montes de areia e brita, pinguelas e goteiras.


Quando a casa finalmente ficou pronta, consertada, bem pintada, um encanto, bem anos setenta, com frente de cerâmica imitando tijolinho à vista, janelões enormes, dracenas no jardim e piso de parquet com sinteco, linda, meu pai teve que vendê-la pra poder comprar a casa velha do outro lado da rua, onde ficava a panificadora, cujo ponto comercial não podia ser perdido.


Daria até pra ficar traumatizado, mas não fiquei, pois logo descobri que a outra casa, apesar de velha, era imensa, com sótão, passos no porão, assombração e almas com perfume de jasmim.


Quando nos mudamos, abandonando o Cadillac, rumo ao calhambeque, eu tinha dez anos. O fato que ocorreu e que até poderia ter me deixado traumatizado, entretanto, foi no início da construção, quando eu deveria ter, uns cinco ou seis anos.


Saía tranquilamente do banheiro, quando de repente vi algo como um bicho, uma onça ou qualquer coisa assim, vir correndo em minha direção. Eu nem vi direito o que era, e nem precisava ver, pra entrar em pânico e sair gritando, correndo e chorando muito.


O Zito, meu irmão mais velho e mentor da coisa, e o Gusto, meu falecido irmão, que andava pela casa de gatinho, sob uma pele verdadeira de onça, que tinha sido enviada de Siqueira por alguém, pra ser curtida em Curitba, diante da minha gritaria, até perderam o rebolado…


Só lembro do impacto que aquele bicho, andando pela casa me proporcionou. O quanto chorei e o quanto dei de trabalho pra que eles conseguissem me acalmar, eu não lembro.


Soube que depois, apesar de não ter achado graça, compreendi que era apenas uma brincadeira boba e que não haveria nenhum perigo de haver outras onças andando por nossa casa.


Assim, não foi um trauma ter saído da casa que tanto gostava, e que não existe mais, pra ir morar em outra que apesar de não ser tão bonita, mostrou ser uma experiência marcante e positiva em minha vida.


A história da onça, também não vejo como um trauma, apenas, que nunca mais vi a imagem de uma onça, sem deixar de me lembrar daquele baita susto provocado pela brincadeira sem graça dos meus irmãos.


Por outro lado, traumatizado ou não, se um dia me ver, face a face com uma onça, como tive naquela tarde, acho que correrei do mesmo modo…


Ilustração de Melanie M. Parks, capa da Revista Gráfica, número 22, de 1988, editada por Oswaldo Miran, em Curitiba.



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